10 de nov. de 2025
Bill Gates tem razão. E a ideia é fundamental.
Roberto Alvarez
Editorial

Quando o mundo se prepara para iniciar a COP30, é importante dizer em alto e bom som: Bill Gates tem razão. Muitos se espantaram com as declarações do fundador da Microsoft — bilionário e filantropo — sobre a necessidade de repriorizar os investimentos em clima. Alguns o acusaram de minimizar o problema, mas Gates não nega a gravidade da mudança climática. Ele apenas recoloca o debate em perspectiva: não é o clima que vem primeiro, é a pobreza. Sem crescimento econômico, sem geração de oportunidades e sem combate à pobreza, não há sustentabilidade possível. É preciso economia para melhorar a sociedade — e só então será possível enfrentar a mudança do clima de forma consistente, com legitimidade social e base material sólida.
Nesse ponto, Lula encontra Gates. O presidente brasileiro tem colocado o combate à pobreza e à desigualdade como eixo central da COP30, e tem razão. A agenda climática não pode ser um luxo dos países ricos; precisa ser um instrumento de prosperidade compartilhada. O futuro do planeta depende da capacidade de construir modelos econômicos que gerem valor sem destruir a natureza, que criem riqueza e oportunidades em novos setores — da energia limpa à bioeconomia — e que permitam às pessoas não precisarem escolher entre sobreviver e preservar. Essa convergência de visões, ainda que partindo de trajetórias distintas, reforça um ponto essencial: não haverá transição verde sem inclusão social e sem crescimento econômico. Sustentabilidade exige prosperidade.
A Amazônia, por exemplo, abriga cerca de quarenta milhões de pessoas. São brasileiros que precisam gerar sustento, criar valor e viver com dignidade. Aqueles que vivem nas grandes cidades têm dinâmicas distintas das comunidades da floresta, mas todos, de alguma forma, dependem de oportunidades econômicas reais. Se essas oportunidades não existirem, continuarão recorrendo a atividades de baixo rendimento e alto impacto ambiental, como o desmatamento. Essa é a verdade incômoda que muitos preferem ignorar. A luta por um planeta sustentável é, antes de tudo, uma luta por desenvolvimento humano, produtividade e prosperidade. Preservar o valor absoluto da natureza — da beleza, das florestas, da chuva que elas produzem, dos frutos que a terra dá, da atmosfera que abriga a vida — só será possível se esse valor estiver integrado à criação de riqueza econômica. A floresta precisa valer mais em pé do que derrubada.
Para isso, o caminho passa por tecnologia, inovação e ordem. Precisamos de tecnologias que entreguem soluções reais e acessíveis, de modelos de negócio que combinem renda e preservação, de sistemas produtivos que unam crescimento e equilíbrio ambiental. Precisamos de ordem — na Amazônia, na Mata Atlântica, no Cerrado, no Pantanal, no Pampa — ordem que garanta que a floresta continue sendo floresta, que o campo produza de maneira sustentável e que as cidades não sufoquem o planeta. Mas também precisamos mudar o pensamento. Sustentabilidade não é o oposto de desenvolvimento, nem um freio ao progresso; é o caminho mais inteligente e duradouro para alcançá-lo.
Bill Gates lembrou em seu ensaio recente que é hora de olhar além do alarmismo e focar no que realmente melhora a vida das pessoas. O combate à mudança climática não pode ser um dogma que ignora as realidades econômicas e sociais. O progresso virá da combinação entre inovação, investimento e inclusão — da fusão entre novas tecnologias e o poder regenerativo da própria natureza, a mais sofisticada “tecnologia” de captura de carbono que existe. No entanto, para entender e valorizar a natureza, é preciso conhecê-la. Saber o que há em cada bioma, o que cada ecossistema oferece, quais serviços presta — da regulação da chuva à captura de carbono, da fertilidade do solo ao equilíbrio climático. E para isso, precisamos medir. Precisamos de dados, de informação, de mapeamento e de inteligência. Só o que é medido pode ser gerido e valorizado.
Criar valor onde há natureza é o grande desafio — e a grande oportunidade — da nossa geração. É isso que permitirá transformar conservação em prosperidade, floresta em riqueza e sustentabilidade em economia real. Para isso, é indispensável construir soluções tecnológicas digitais que tornem a natureza mensurável, transparente e economicamente reconhecida. É exatamente nesse espaço que surgem novas plataformas, como a YangPlanet, que nasce com o propósito de apoiar a transição para uma economia de baixo carbono, baseada em dados, conhecimento e tecnologia. A YangPlanet trabalha para entender a natureza, medir, registrar e traduzir em valor econômico os serviços que ela presta — ajudando a criar os modelos de negócio, crédito e desenvolvimento que permitirão que pessoas e comunidades vivam melhor sem destruir o planeta.
Bill Gates tem razão. Lula também. O combate à pobreza é o primeiro passo do combate à mudança climática. Só sociedades que prosperam podem cuidar do planeta — e só quando a natureza tiver valor econômico real, medido, conhecido e reconhecido, é que poderemos preservá-la de verdade.