16 de jan. de 2026

Do solo ao carbono: ciência, economia e justiça climática no coração do Acre

Rafa Moura e Lua Schabib

Carbono Global

Hoje, o debate sobre clima virou debate de economia — e também de poder. Enquanto perguntam “qual é a viabilidade do projeto?”, do outro lado existem territórios inteiros sustentando a floresta — e ainda vivendo no escuro, sem energia, sem infraestrutura, sem acesso ao tal “benefício” do mercado.

Neste episódio, a gente vai direto ao ponto que mais chama atenção no cenário político e econômico de hoje: o carbono, sozinho, não dá conta da história. Pra conversar sobre isso, recebemos Eufran Amaral, pesquisador de carreira da Embrapa, amazônida do Acre, com passagem pela gestão pública e uma visão de território que amplia o debate: carbono não como “produto”, mas como estratégia de desenvolvimento, serviços ambientais e “bem viver”.

Essa conversa é um convite pra enxergar a Amazônia não como promessa abstrata, mas como o centro real das decisões do nosso tempo. Leia um trecho abaixo e ouça na íntegra no nosso CarbonoCast, no Spotfy.

Lua Schabib: Então estamos fazendo essa história de podcast, essas entrevistas, buscando essas, essas conversas para trazer essa visão científica, essa visão econômica, essa visão holística desse assunto. Como falar de você, da tua atuação, desses projetos, da visão, do espiritual, do bambu? Como é que você chegou aí? Da onde que veio o interesse?

Eufram Amaral: Dentro da Embrapa, eu trabalho com planejamento e uso da terra, com questão de mudança climática, zoneamento. E tem um tema que eu venho me dedicando nos últimos quinze anos, que é a questão de bambu. Por que isso? Porque o Acre tem onze milhões de hectares de floresta com bambu. A China tem cinco milhões. Para vocês terem uma ideia, então a gente tem um potencial danado aqui. E por fim, eu tenho trabalhado nos últimos vinte anos também com populações indígenas. Então, trabalho com ética e pedologia, né? E esse fio condutor? Um tema que liga tudo isso e essa questão do carbono. O carbono está presente tanto na minha vida como gestor público. A gente criou aqui a primeira lei no Brasil, de um sistema estadual de incentivo a serviços ambientais do Acre, o Acre. Pioneiro nisso. Nós estávamos coordenando uma equipe que trabalhou nisso em dois mil e dez. O Acre sanciona o governador. O então governador Binho Marques sanciona essa Lei do SISA e cria o Sistema Estadual de Incentivo a Serviços Ambientais. Sempre que a gente pensa em carbono, no meu caso, eu sempre penso naqueles mais vulneráveis e nos povos indígenas, os produtores, familiares, ribeirinhos, enfim, naqueles que não têm condições de acessar mercados, de acessar técnicas para fazer bons projetos. Então.

Lua Schabib: No front, né? Que estão no front como protagonistas.

Eufram Amaral: Exatamente. Luana Então, o que que é? São os que mais trabalham, os que mais contribuem para, de fato, conservar a floresta e seus serviços. E são aqueles que têm mais dificuldade de acessar os benefícios disso, esse é o nosso grande desafio

Lua Schabib: Você tá no coração da Amazônia, Do mundo. Corta a cena: Por que estudar o solo? Aí a outra coisa é essa questão do bambu. A gente não pensa no bambu como uma espécie predominante na floresta Amazônica...

Eufram Amaral: O solo é a base da produção agrícola. Produção pecuária, Produção florestal e agroflorestal. Eu me interessei por entender essa relação da base da produção com um processo de planejamento, e de avaliação de solo que pudesse dar melhores condições de produção, de conservação. Na Embrapa é a parte de classificação e manejo, e mais recentemente, nos últimos dez, doze anos eu tenho trabalhado com etnopedologia, ligando a visão do homem do ponto de vista do manejo dos seus recursos, tenho trabalhado com populações indígenas, inclusive classificando, Solos na língua nativa deles.

Lua Schabib: Eufran, inclusive você falando dá um tuim, porque geralmente as populações indígenas a gente consegue vincular, a sua participação na formação da floresta com a semente Você fez uma abordagem, da pesquisa para entender a visão deles sobre o solos também, na formação da Amazônia, né?

Eufram Amaral: Pra você ter uma ideia, como a sua percepção é acertada e verdadeira, os Kaxinawá Ele não tem uma tradução para solo. Solo e terra. Para ele é a mesma coisa chama mãe, mãe e solo e terra como mãe. Na verdade, quando a gente fala de solo, é a base de toda a produção, É a base de fato, de toda a estratégia de conservação. Sem solo a gente não tem a floresta. Sem solo você não tem o que almoçar na sua casa todos os dias, porque a produção vem dali.

Lua Schabib: E aí já linka a questão do desse mercado intangível do carbono que a gente costuma vincular à captura de carbono com floresta árvore. O Rafa até estava me ensinando ali como que a gente lê na árvore, né? A captura do carbono. Mas o solo também faz isso, né?

Eufram Amaral: Tipo, exatamente aí que é uma coisa importante, não é o carbono. A gente pode armazenar o carbono na floresta. É o carbono também armazenado no solo, em quantidades tão grandes quanto que estão na biomassa florestal. Por isso que a gente tem trabalhado nas quantificações para quantificar os dois compartimentos. Quanto que a gente consegue armazenar na planta, é quanto que a gente armazena no solo.

Rafael Moura: É que o Eufran tem uma visão totalmente diferente do corporativismo das empresas que trabalham com crédito carbono. Cara, tipo assim. A fotossíntese tá ali, capturando o CO2 da atmosfera, transformando isso em carbono orgânico no que fica na planta ela está sequestrando CO2, transformando em orgânico. Isso tá salvando tua vida, a filha, eu, até teus netos, toda tua geração tá salvando a vida dela. A árvore tá crescendo e tá sequestrando o CO2 da atmosfera. E tá acumulando tanto no tronco das árvores como nas folhas como no solo.

Eufram Amaral: E a gente tem uma floresta consorciada com bambu. Isso é interessante. Então, assim, você tem no bambu, uma oportunidade, inclusive, para associá lo com espécies florestais na estratégia de restauração, porque ele é nativo aqui da região. Então, essa é um tema que.

Lua Schabib: Isso que a gente chama, que a gente escuta dessa agrofloresta, o bambu, ele é parte, ele não é um e ele captura carbono também. Já que a gente ta falando de carbono, não é?

Eufram Amaral: Exatamente. Exatamente. Ele a gente quantificou, ele capta. O bambu capta tanto carbono quanto às espécies florestais. Ele E é muito rápido. Tem espécies de bambu que cresce mais de cinquenta centímetros por dia. Aí então ele é uma maquina de captar carbono. Por isso que entrou aqui na nossa conversa é excelente. O plantio de bambu para sequestro de CO2. É uma tem um potencial tamanho, Entendeu?

Lua Schabib: Que maravilha!

Rafael Moura: cinquenta centímetros.

Eufram Amaral: E tem feto que cresce muito rápido aí. Claro, né, A gente fala isso, mas aí na época da chuva, né? Então cresce maior, bem como que a gente engaja as pessoas. Pra mim é simples, né? A questão de mudança climática hoje é uma questão de sobrevivência, né? Se cada um de nós não fizer a sua parte, não tiver de fato o engajamento e a participação, quer com atitudes simples, economizando energia, economizando água, economizando esses recursos do planeta, fazendo compra sustentável, né? Então, hoje cada um de nós pode engajar, pode engajar, comunicando com o outro, né? Reciclando material, produzindo menos lixo, né? E tendo uma vida de menos, né? Menos comida, menos energia, né?


(…)

Eufram Amaral: Pra mim, aí a gente poderia pensar mais, Projeto de Desenvolvimento territorial, projeto de desenvolvimento que envolva as pessoas que integra as pessoas, Eu tenho falado isso aqui dentro do governo do Estado, um projeto de carbono, tem que ser um projeto que agregue uma estratégia de desenvolvimento daquele espaço, quer seja ele uma terra indígena, quer seja ele uma fazenda que tem um único proprietário, quer seja um projeto de assentamento que tem trezentos assentados, quer seja um trecho de um rio que tem lá duzentos ribeirinhos, né? Ou uma terra que tem trezentos quilombolas. Então tem que ser um projeto de carbono, que ajuda na vida das pessoas. Tem que ser uma estratégia de desenvolvimento. Tem que ajudar a estratégia de envolvimento daquelas pessoas, daquela comunidade que ali vive. Uma coisa que também agora me veio a cabeça aqui, que eu acho que é um termo legal. A gente está fazendo isso dentro de um projeto da Embrapa, que é o termo do bem viver. A gente quer bem viver. As pessoas querem viver bem, né? Então, eu acho que é isso.

Lua Schabib: Como que é o nome do economista indiano que fala disso? Amartya Sen, né?

Eufram Amaral: Sensacional. É isso o que a gente quer. Um projeto de carbono tem que ir além. Ele tem que pensar além do seu tempo. Ele tem que caminhar pra que as pessoas possam viver bem. Viver bem significa ter melhores condições de saúde, Melhores condições econômicas, melhores condições sociais, fortalecer a sua cultura. Garantir serviços ambientais? Garantir as condições planetárias? Olha só que coisa legal! Aí a gente ligar as condições locais como planeta. É esse o nosso que deveria ser o nosso sonho.

Lua Schabib: E talvez seja uma abordagem interessante, uma ação efetiva e necessária.

Eufram Amaral: Isso os povos indígenas têm uma política que chama o a e o Plano Nacional da Política Nacional. O Plano Nacional Política Nacional de Gestão Ambiental e Territorial Indígena. Os indígenas reúnem e constroem o seu plano de vida. Planejam cinquenta anos na frente. Fazem os seus etno zoneamento. Imagina a gente pensar cinquenta anos na frente, né? Então, um projeto de um projeto Carbono é isso, o projeto Carbono, no mínimo. Ele, ele pensa trinta anos é projeto de vida, né?

Lua Schabib: Projeto de futuro a gente tem que falar de futuro como sociedade.

Rafael Moura: O processo é mais complexo, mas o entendimento é muito mais simples. a estrutura do conhecimento é muito simples. Ela vem da nossa herança, vem da nossa base.


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