19 de jun. de 2026
Financiar a natureza não é um problema de dinheiro. É de conexão.
Carbono Global

Existe uma suposição que organiza boa parte do debate climático: a de que o problema central é a falta de recursos. Mais fundos, mais compromissos, mais bilhões anunciados em conferências. No painel "Desbloquear o Financiamento para a Natureza: mecanismos de investimento, bioeconomia e cooperação Sul-Sul", durante a Rio Nature & Climate Week, Rogério Studart, economista-chefe da YangPlanet, propôs uma inversão dessa lógica.
Para ele, o capital existe. O que falta, em grande medida, é a capacidade de conectar esse capital aos projetos certos. O gargalo não está no volume de dinheiro disponível, mas na ausência de mecanismos que reduzam o atrito entre quem financia e quem produz natureza.
O debate, realizado em 3 de junho de 2026, reuniu Rogério ao lado de Nikola Ivezaj (Global Citizen), Marcelo Thomé (Instituto Amazônia+21) e Patrícia Ellen, em uma conversa sobre como mobilizar investimento para a conservação, a bioeconomia e um modelo de desenvolvimento mais inclusivo e resiliente.
Em sua intervenção, Rogério partiu de uma premissa pragmática: ambição ambiental não basta. A agenda climática só avança quando existem condições econômicas e financeiras capazes de transformar projetos sustentáveis em investimentos viáveis e escaláveis. E isso, segundo ele, depende de enfrentar dois desafios concretos.
O primeiro é o alto custo do capital no Brasil, que encurta horizontes e inviabiliza o tipo de investimento de longo prazo que a restauração de biomas e as soluções baseadas na natureza exigem. O segundo é facilitar a vida de quem está na ponta, os empreendedores que desenvolvem essas soluções e que hoje navegam um ambiente de investimento desnecessariamente hostil.
É aqui que entra a parte menos óbvia do raciocínio. Rogério observou que, muitas vezes, o recurso está disponível. O que falha é a etapa anterior: identificar a oportunidade, compreender os requisitos de elegibilidade, traduzir um projeto para a linguagem do financiador adequado. Capital catalítico, financiamento climático e instrumentos concessionais existem em instituições nacionais e internacionais. Mas conectar um projeto de campo a essas fontes continua sendo um processo caro, lento e opaco.
A resposta que ele propõe é de engenharia, não de retórica. Novas plataformas, ferramentas digitais e mecanismos de apoio que reduzam custos de transação, ampliem transparência e acelerem o acesso a recursos para iniciativas com impacto socioambiental positivo. Inovação tecnológica e financeira trabalhando juntas para encurtar a distância entre o dinheiro e o território.
Há ainda uma segunda camada na fala de Rogério, e talvez seja a mais provocativa. A crise climática é global, mas as soluções financeiras seguem concentradas e, em boa parte, foram desenhadas a partir da realidade dos países desenvolvidos. Aplicar esse desenho aos países do Sul Global é tentar resolver um problema com uma ferramenta calibrada para outro contexto.
Por isso ele defendeu o aprofundamento das relações Sul-Sul não como gesto de solidariedade, mas como correção de uma assimetria. Países que enfrentam desafios semelhantes de desenvolvimento e transição climática têm a chance de construir, juntos, mecanismos de financiamento mais adequados às suas próprias realidades econômicas, sociais e institucionais. O Sul Global deixa de ser destinatário de recursos pensados lá fora e passa a ser arquiteto de uma arquitetura financeira mais inclusiva e mais alinhada aos territórios onde a transformação acontece.
O painel reforçou uma mensagem que atravessou toda a Rio Nature & Climate Week: enfrentar a crise climática exige menos discurso sobre escassez e mais infraestrutura de conexão. Capital, projetos e territórios já existem. Construir as pontes entre eles é o trabalho que falta, e é exatamente nesse ponto que a YangPlanet decidiu atuar.