2 de jun. de 2026
Uma nova indústria está nascendo no Brasil. Fomos ver de perto.
Carbono Global
Bioeconomia

A YangPlanet esteve na primeira edição do Simpósio de Inovação Agroflorestal, realizado na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP), em Piracicaba. O evento foi organizado pelo Centro de Estudos e Inovação Agroflorestal (CEIA) e reuniu pesquisadores, empreendedores, investidores, produtores rurais, empresas e organizações ligadas ao universo dos sistemas agroflorestais e da bioeconomia.
A percepção que ficou foi clara: uma nova indústria está em formação no Brasil.
Um ecossistema que começa a se estruturar
A própria criação do CEIA e a realização do simpósio em sua primeira edição são sinais de amadurecimento. O encontro começou a conectar elementos que antes operavam de forma isolada: produtores, cientistas, investidores, empresas, processadores e desenvolvedores de projetos.
Casos apresentados por organizações como Belterra, Heineken Brasil e Fundo Vale mostraram como temas como carbono, rastreabilidade, resiliência climática e serviços ecossistêmicos começam a entrar de forma mais concreta nas estratégias corporativas. As chamadas soluções baseadas em natureza (NbS) dão seus primeiros passos de iniciativa de responsabilidade socioambiental para modelo de negócio.
Por que sistemas agroflorestais são diferentes
Os sistemas agroflorestais (SAFs) não se comportam como o agronegócio convencional. Eles operam com diversidade de espécies, ocupação vertical do espaço, múltiplos ciclos de crescimento, interação entre plantas, dinâmica da luz e transformações ao longo do tempo. Isso exige experimentação contínua, coleta de dados e desenvolvimento de conhecimento aplicado que simplesmente ainda não existe de forma consolidada.
Uma nota terminológica relevante: SAF, neste contexto, refere-se a Sistema Agroflorestal. A sigla é a mesma usada para Combustível Sustentável de Aviação (Sustainable Aviation Fuel), setor distinto que também opera no mercado de carbono.
Onde a inovação vai acontecer
Um dos temas mais relevantes do evento foi a convergência entre biologia, ciência de dados e computação. Há muito a ser aprendido sobre as interações entre espécies vegetais, produtividade, regeneração e captura de carbono, e isso vai demandar grandes volumes de experimentação, modelagem e análise. Empresas como a Courageous Land já começam a se posicionar como plataformas de inteligência voltadas ao universo agroflorestal.
Outro ponto amplamente debatido foi a necessidade de tropicalização dos sistemas de MRV (mensuração, reporte e verificação). Hoje, muitos protocolos ainda se baseiam em referências internacionais que não capturam adequadamente a complexidade dos ecossistemas brasileiros. É uma oportunidade concreta para o desenvolvimento de ciência, tecnologia e novos modelos de negócio com base local.
O gargalo do financiamento
O tema do capital apareceu repetidamente ao longo do encontro. Empresas e fundos relataram dificuldades para estruturar operações em um ambiente de capital caro e escasso. Instrumentos como blended finance, fundos garantidores, microcrédito, CRAs, Fiagros e mecanismos de first loss foram discutidos como caminhos para destravar investimentos.
O perfil mais valioso: tradutores de mundos
Um insight central emergiu ao longo do simpósio: o maior ativo desta economia em formação serão os profissionais e organizações capazes de conectar ciência, produtores rurais, mercado financeiro, reguladores, indústria e compradores corporativos. A capacidade de "traduzir mundos" vai se tornar central para a consolidação da bioeconomia no Brasil.
Para Roberto Alvarez, cofundador da YangPlanet:
"As agroflorestas são um caso no qual natureza, ciência, tecnologia e finanças precisarão operar de forma integrada. O Brasil possui ativos naturais extraordinários e uma capacidade única de produção de biomassa. O desafio agora é construir os arranjos econômicos, financeiros e industriais que permitam transformar esse potencial em desenvolvimento de longo prazo."
Sem negócios, não há solução.