Sep 29, 2026
Um patrimônio que muitas empresas brasileiras ainda não enxergam
Rogério Studart
Carbono Global

Recentemente visitei uma grande empresa do setor sucroenergético no Nordeste. Fui até lá pensando sobretudo em sua estratégia financeira. Voltei com a impressão de que uma parte importante de seu patrimônio não aparecia claramente nas demonstrações financeiras. Talvez nem fosse percebida, dentro da própria empresa, como um ativo estratégico.
Ao longo dos anos, a empresa havia investido em irrigação por gotejamento, uso de fertilizantes orgânicos, aproveitamento de biomassa, recuperação de áreas degradadas, reflorestamento e proteção de florestas, fauna e manguezais. Algumas dessas iniciativas surgiram em resposta às necessidades da produção. Outras resultaram da relação da empresa com o território e com as comunidades ao seu redor.
Não eram projetos concebidos para atender à mais recente agenda internacional de sustentabilidade. Em muitos casos, vieram de antes. Foram soluções encontradas para economizar água, melhorar o solo, utilizar resíduos, reduzir custos ou preservar recursos naturais dos quais a própria atividade depende.
Um patrimônio disperso
Isso me levou a pensar em quantas empresas brasileiras se encontram em situação semelhante.
Ao longo de décadas, elas construíram um patrimônio socioambiental considerável, mas que continua disperso entre propriedades, unidades produtivas e diferentes áreas da administração. São práticas e investimentos vistos separadamente, sem que a empresa pare para avaliar quanto esse conjunto contribuiu para sua eficiência, sua capacidade de enfrentar períodos difíceis e, em última instância, seu retorno econômico.
A relação nem sempre é imediata, mas existe. A irrigação mais eficiente reduz o consumo de água e torna a produção menos vulnerável à seca. O aproveitamento de resíduos e da biomassa diminui custos e pode abrir novas fontes de receita. A utilização de insumos orgânicos reduz parte da dependência de produtos externos, melhora as condições do solo e protege a empresa contra oscilações de preços.
A preservação de matas, nascentes e manguezais também não deve ser vista apenas como uma obrigação ou um gesto de responsabilidade ambiental. Esses ecossistemas protegem o solo, ajudam a regular a água, conservam a biodiversidade e reduzem a exposição do território a eventos climáticos extremos. Sua preservação pode ter efeitos bastante concretos sobre a segurança e a continuidade da produção.
Nem todo benefício ambiental, evidentemente, pode ser transformado em receita. Seria um erro cair nessa simplificação. Mas muitos desses investimentos reduzem custos, riscos e vulnerabilidades. Outros melhoram a relação com trabalhadores, comunidades e autoridades locais. Em conjunto, podem reforçar a posição da empresa diante de clientes, investidores e instituições financeiras.
Da prática ao projeto financiável
O problema é que poucas empresas medem esses efeitos de maneira organizada.
Uma prática bem-sucedida, por si só, ainda não é um projeto capaz de atrair financiamento. Para isso, é preciso explicar o que será feito, quanto custará, quem será responsável pela execução, quais resultados são esperados e como esses resultados serão acompanhados. É necessário, ainda, mostrar quais benefícios pertencem à empresa e quais alcançam o território e a sociedade.
Esse trabalho de organização pode parecer burocrático, mas é justamente o que permite aproximar bons projetos das fontes de capital existentes.
Há hoje bancos de desenvolvimento, fundos climáticos, fundações e investidores interessados em agricultura de baixo carbono, bioenergia, uso eficiente da água, biodiversidade e recuperação de ecossistemas. Dependendo das características de cada projeto, esses atores podem oferecer financiamento de prazo mais longo, garantias, assistência técnica, recursos concessionais e, em casos específicos, recursos não reembolsáveis.
Não se trata de imaginar que dinheiro destinado ao clima ou à natureza possa simplesmente pagar as dívidas de uma empresa. As instituições possuem critérios próprios, e os recursos precisam estar vinculados a projetos elegíveis. Existe, porém, um efeito financeiro importante. Quando um investimento ambiental encontra uma fonte adequada de financiamento, ele deixa de disputar integralmente o mesmo caixa utilizado pela empresa para manter e expandir suas atividades.
O inventário como ponto de partida
É nesse sentido que o patrimônio socioambiental pode contribuir para ampliar o horizonte dos negócios.
O ponto de partida deveria ser um inventário cuidadoso. O que a empresa já faz? Quanto investiu? Que resultados obteve? Quais iniciativas poderiam ser ampliadas? Quais têm impacto mensurável sobre a produtividade, os custos e os riscos? Quais geram benefícios para as comunidades e para o território?
Esse levantamento também deve separar claramente o que é obrigação legal do que constitui investimento adicional. Sem essa distinção, corre-se o risco de apresentar como inovação aquilo que a empresa já deveria fazer de qualquer maneira. Além de impreciso, isso compromete a credibilidade de toda a agenda.
Feita essa separação, algumas iniciativas podem ser organizadas como uma carteira de projetos. Não como uma coleção de boas intenções, mas como propostas com custos, prazos, responsáveis e resultados verificáveis. Algumas terão retorno financeiro mais direto. Outras produzirão valor principalmente pela redução de riscos ou por seus efeitos sociais e ambientais. Cada uma exigirá uma combinação diferente de recursos e parceiros.
A visita também reforçou para mim que essas iniciativas não cabem inteiramente dentro dos limites físicos de uma empresa. A proteção de uma bacia hidrográfica, a recuperação de um manguezal ou a formação de trabalhadores e produtores locais produzem benefícios que se espalham pelo território. Por isso, muitas vezes fazem mais sentido quando envolvem universidades, governos locais, instituições financeiras, organizações técnicas e comunidades.
O Brasil possui uma enorme vantagem nesse campo. Além de sua biodiversidade e de seus recursos naturais, dispõe de empresas que acumularam conhecimento prático sobre agricultura, energia, florestas e gestão territorial. Parte desse conhecimento nasceu da necessidade de operar em condições difíceis e de encontrar soluções onde o Estado ou o mercado não chegavam adequadamente.
Um ativo ainda invisível
No entanto, esse patrimônio permanece, em boa medida, invisível.
Talvez este seja o principal aprendizado da visita. Antes de sair em busca de uma nova narrativa ambiental, muitas empresas brasileiras deveriam olhar com mais atenção para sua própria história. Elas podem descobrir que já construíram ativos importantes para sua eficiência e sua resiliência climática, mas nunca os reuniram, mediram ou incorporaram plenamente à estratégia do negócio.
O próximo passo não é apenas comunicar melhor o que já foi feito. É transformar essa experiência acumulada em projetos mais ambiciosos, capazes de atrair parceiros, mobilizar recursos e produzir novos resultados.
Em muitos casos, a base para isso já existe. Falta reconhecê-la e tratá-la como parte do futuro da empresa, e não apenas como um registro de seu passado.