May 8, 2026

Guia Carbono Cast #5 - Para entender como viabilizar a economia do carbono no Brasil

Carbono Cast

Carbono Cast

Nome: Marco Fujihara

Cargo: Founder and Partner

Organização: Infrapar Capital Partners

Tema do episódio: Como conectar florestas, política pública, mercado e finanças para viabilizar a economia do carbono no Brasil

Para ouvir o episódio completo, acesse o link.


PONTOS-CHAVE DO EPISÓDIO

  • Carbono não funciona sozinho. Para Marco Fujihara, o crédito de carbono só escala quando está acoplado a instrumentos financeiros adequados: prazos longos, estruturas de crédito, mecanismos de offtake e engenharia institucional. Sem essa arquitetura, projetos não chegam a escala.

  • O mercado se constrói por protótipos. A lógica do Prototype Carbon Fund (Banco Mundial) não era apenas testar instrumentos financeiros - era prototipar MRV, metodologias e governança. O aprendizado prático precede a regulação robusta.

  • Carbono é, no fundo, um derivativo. O crédito vira ativo transacionável e, para operar como tal, exige base jurídica clara, metodologia crível e mercado com liquidez real. Sem isso, não há trading - só transações pontuais.

  • O Brasil atrasou no locus de trading. A ausência de regulação clara e de volume suficiente impediu o mercado de ganhar profundidade. A B3 tem iniciativa na área, mas ela depende de escala e de regras que ainda estão sendo construídas.

  • 2026 e o Artigo 6 tendem a elevar o padrão. A convergência entre o cronograma do Acordo de Paris e a implementação das regras do Artigo 6 deve aumentar as exigências metodológicas e de governança - recompensando quem investiu em fundamentos.

  • Duas frentes com tração real no Brasil: agronegócio e mobilidade urbana/eletrificação. São os setores onde a combinação de escala, demanda e maturidade metodológica está mais avançada.

  • Visão sistêmica da propriedade rural. Carbono é apenas uma das variáveis. O valor real emerge da integração entre agricultura, reserva legal, conservação, logística e exigências de mercado externo. Quem enxerga só o crédito está deixando valor na mesa.

  • A base é ciência - antes de plataformas e registradoras. O que dá sustentação ao mercado é protocolo robusto de MRV, dados consistentes e metodologias adaptadas aos biomas brasileiros. Sem isso, nenhuma infraestrutura de negociação resolve o problema da credibilidade.


GLOSSÁRIO

  • Mercado regulado - Sistema em que há obrigação formal de monitorar, reportar e reduzir emissões, com metas e regras estabelecidas por regulação estatal. Empresas participam por exigência legal, não por iniciativa própria.

  • Mercado voluntário - Compras de créditos por iniciativa própria, normalmente motivadas por metas ESG, reputação ou estratégia de custo. Não há obrigação legal - a adesão é uma escolha.

  • Adicionalidade - Princípio central de qualquer projeto de carbono: a redução ou remoção de emissões só é válida se não teria ocorrido sem o incentivo do projeto. É o critério que distingue compensação real de greenwashing.

  • Custo de abatimento vs custo de oportunidade - Comparação entre reduzir emissões dentro da própria operação versus comprar créditos externos quando isso é mais eficiente ou mais barato. Esse cálculo determina a demanda por offsets no mercado.

  • Offset - Mecanismo de compensação: em vez de reduzir emissões diretamente, a empresa compra créditos gerados por projetos externos que realizaram essa redução ou remoção em seu lugar.

  • MRV (Monitoramento, Relato e Verificação) - Conjunto de protocolos para medir, reportar e auditar resultados ambientais de projetos de carbono. É o alicerce da credibilidade: sem MRV robusto, o crédito não tem base técnica.

  • Artigo 6 (Acordo de Paris) - Arcabouço que regula a cooperação internacional em mercados de carbono vinculados às NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas). Define regras para transferências de créditos entre países, com exigências metodológicas e de governança mais rigorosas.

  • Autorregulação - Mecanismos do próprio mercado para estabelecer padrões, separar projetos sérios dos oportunistas e criar sinal de confiança — em paralelo ou antes da regulação estatal plena. Marco defende esse caminho como o mais pragmático para organizar o mercado brasileiro.

  • Trading - Compra e venda de créditos com liquidez real. Para funcionar, exige volume, regras claras, produtos padronizados e confiança entre os participantes. Sem esses elementos, o mercado não se aprofunda.

  • NDC (Contribuição Nacionalmente Determinada) - Compromisso climático assumido por cada país signatário do Acordo de Paris, com metas de redução de emissões e planos de implementação. As NDCs são o elo entre política climática nacional e os mecanismos do Artigo 6.


ORGANIZAÇÕES, PROGRAMAS E INICIATIVAS CITADAS

  • Infrapar Capital Partners - Empresa de Marco Fujihara, que atua na ponte entre projetos de carbono, metodologias e estruturas financeiras. Foco em viabilizar o elo entre floresta, política pública e mercado no Brasil.

  • Prototype Carbon Fund (Banco Mundial) - Fundo pioneiro de prototipagem de instrumentos de mercado de carbono, financiado por capital privado. Seu papel histórico foi testar não só estruturas financeiras, mas também MRV e metodologias - antes que existissem modelos consolidados.

  • Rabobank Banco de origem holandesa com atuação relevante em comercialização de carbono e em estruturas financeiras de longo prazo associadas a restauração florestal e regularização ambiental no Brasil.

  • B3 - Empresa de infraestrutura de mercado financeiro que opera bolsa e mercado de balcão no Brasil. Possui iniciativa para criar ambiente de negociação de créditos de carbono, ainda dependente de escala e regulação para ganhar tração.

  • Centro de Carbono na USP/Esalq - Centro de pesquisa translacional referência na construção de base científica e metodológica para o mercado de carbono no Brasil, com foco em biomas brasileiros.

  • PwC - Empresa de consultoria e auditoria onde Marco Fujihara estruturou a área de sustentabilidade para a América Latina, tendo acumulado experiência na interface entre finanças e agenda climática.

  • Programa ProCarbono (Bayer) - Exemplo de iniciativa corporativa voltada ao carbono no agronegócio, citado como referência de tração setorial no Brasil.

  • Ewá - Fundo pequeno citado como exemplo de atuação em agricultura regenerativa, ilustrando a diversidade de estruturas financeiras no setor.

  • CARB (California Air Resources Board) - Agência regulatória da Califórnia citada como modelo de trajetória bem-sucedida: teria começado com autorregulação e evoluído para um dos arcabouços regulatórios de carbono mais robustos do mundo.


RECURSOS (COM URLS DIRETAS)


PARA REFLETIR

O episódio com Marco Fujihara deixa uma tensão produtiva sem resolver: o Brasil tem os ativos naturais, a escala agrícola e a ciência para liderar o mercado global de carbono - mas ainda não tem a arquitetura institucional, metodológica e financeira que transformaria esse potencial em protagonismo real. Marco não diagnostica isso como falta de vontade, mas como falta de sequência: há quem queira trading antes de ter método, liquidez antes de ter confiança, regulação antes de ter aprendizado prático. A pergunta que fica é sobre ordem e fundamento - o que precisa vir antes para que o restante se sustente.

  • Quais são os padrões mínimos de MRV que deveriam ser exigidos para proteger o produtor rural, o comprador de créditos e a reputação do mercado brasileiro como um todo?

  • Como construir autorregulação de verdade - que organize sem burocratizar, que estabeleça padrões sem virar barreira de entrada, e que não abra espaço para greenwashing por dentro?

  • Se o Brasil quer liderar o mercado global de carbono, o que precisa vir primeiro: liquidez e trading, ou método e confiança?

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