May 15, 2026
Guia Carbono Cast #6 - Para entender o inventário de carbono como infraestrutura estratégica
Carbono Cast
Carbono Cast

Nome: Arthur Covatti
Cargo: Fundador e CEO
Organização: DEEP ESG
Tema do episódio: Como tecnologia, dados e padronização podem transformar inventários de carbono em infraestrutura para gestão, reporte e mercado
Para ouvir o episódio completo, acesse o link.
PONTOS-CHAVE DO EPISÓDIO
A DEEP ESG nasceu de uma aposta em escala via tecnologia: inventários eram processos manuais, lentos e dependentes de coleta intensiva de dados. A virada foi tratar o inventário como um sistema de dados e categorias, não como um relatório.
O gatilho estratégico foi antecipar a chegada dos padrões globais de contabilidade de sustentabilidade (IFRS/ISSB): quem não tivesse dados comparáveis ficaria para trás no acesso a capital e no cumprimento regulatório.
Na prática, o software coleta dados do ERP e de outros sistemas, classifica eventos, aplica fatores de emissão, deduplica registros capturados por fontes distintas e monta o inventário para gestão e reporte.
O Brasil vive um "limbo" nas bases de dados: o protocolo é global, mas os fatores de emissão precisam ser adaptados à realidade local. Se cada empresa cria sua própria base, a comparabilidade desaparece. Se usa base global pura, o inventário pode estar errado para o contexto brasileiro.
O mercado regulado brasileiro tem uma virtude e um risco: a virtude é existir, ser levado a sério e estar em implementação. O risco é que boa parte das definições práticas do lado mercado ainda depende de regulamentação por vir — incluindo o Plano Nacional de Alocação.
A lei brasileira prevê três mercados distintos - regulado, voluntário e transnacional/jurisdicional - com interseções ainda em desenho. Entender onde cada empresa se encaixa exige mais do que familiaridade com o GHG Protocol.
O Brasil tem vantagem natural em captura de carbono (biomas, solo), mas falta método: o potencial é real, as lacunas metodológicas e os desafios de credibilidade também.
Bancos se interessam por inventários por quatro razões concretas: exigência regulatória, acesso a linhas de funding, gestão de risco de carteira e antecipação do impacto do mercado regulado nas empresas onde têm exposição.
GLOSSÁRIO
Inventário de carbono - Consolidação estruturada das emissões de uma organização, classificadas por fontes e categorias, usada para gestão interna, reporte externo e acesso a mercado.
ERP - Sistema central de gestão empresarial que concentra dados financeiros, fiscais, de estoque, compras e produção. É a principal fonte de dados de atividade para cálculo de emissões no modelo da DEEP ESG.
Fator de emissão - Coeficiente que converte um dado de atividade (ex: litros de combustível consumido) em quantidade de CO₂e emitido. A qualidade e a origem desse fator determinam a precisão do inventário.
CO₂e - CO₂ equivalente. Unidade de medida padrão que converte diferentes gases de efeito estufa em uma métrica comparável, com base no potencial de aquecimento global de cada um.
GHG Protocol - Referência global de categorias e regras para inventários de emissões corporativas. Define os escopos 1, 2 e 3 e os critérios de classificação de fontes.
IFRS / ISSB - Padrões internacionais que conectam sustentabilidade e contabilidade, criando linguagem comum de reporte para investidores e mercados financeiros. Sua adoção crescente torna dados de emissão parte da informação financeira comparável.
Carbon tax vs carbon market - Imposto sobre carbono (preço fixo cobrado pelo governo) versus mercado de carbono (compra e venda de permissões, licenças ou créditos entre empresas). Modelos distintos com implicações diferentes para precificação e incentivos.
Plano Nacional de Alocação - Peça regulatória anual que define as regras práticas de funcionamento do mercado regulado brasileiro — incluindo volume de emissões permitido e como as permissões são distribuídas entre setores e empresas.
ORGANIZAÇÕES, PROGRAMAS E INICIATIVAS CITADAS
DEEP ESG - Plataforma de software para inventários de emissões, gestão e reporte de sustentabilidade. Fundada por Arthur Covatti, atende grandes grupos financeiros e industriais brasileiros, incluindo Votorantim, Bradesco, BTG, Safra, C6, Itaú e Lojas Marisa.
ISSB (International Sustainability Standards Board) - Órgão da IFRS Foundation responsável por desenvolver normas globais de disclosure de sustentabilidade focadas nas necessidades de investidores e mercados financeiros. Sua adoção está no centro da tese estratégica da DEEP.
IFRS Foundation - Organização sem fins lucrativos baseada em Londres que define a arquitetura global de normas contábeis. Supervisiona tanto o IASB (contabilidade) quanto o ISSB (sustentabilidade).
GHG Protocol - Conjunto de padrões internacionais para medir, contabilizar e reportar emissões de GEE, desenvolvido pelo WRI e pelo WBCSD. Funciona como o idioma técnico dos inventários corporativos.
Febraban (Federação Brasileira de Bancos) - Entidade setorial que representa os principais bancos do Brasil. Citada no contexto do apoio à padronização de fatores de emissão no Brasil — iniciativa relevante para viabilizar comparabilidade entre inventários nacionais.
CVM (Comissão de Valores Mobiliários) - Autarquia federal que regula o mercado de capitais brasileiro. Mencionada no contexto da adoção de padrões de reporte de sustentabilidade vinculados ao IFRS/ISSB.
Secretaria Especial de Mercado do Carbono do Ministério da Fazenda - Responsável pela condução da implementação do mercado regulado brasileiro. Peça central na definição das regras que ainda aguardam regulamentação.
IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change) - Órgão científico das Nações Unidas que avalia e sintetiza o conhecimento científico sobre mudanças climáticas. Base metodológica para cálculo de potenciais de aquecimento global usados nos fatores de emissão.
WRI (World Resources Institute) - Instituto de pesquisa que co-desenvolveu o GHG Protocol. Referência técnica global em mensuração e gestão de emissões.
RECURSOS (COM URLS DIRETAS)
PARA REFLETIR
O episódio com Arthur Covatti expõe uma tensão que vai além da tecnologia: o Brasil tem os ativos naturais, tem a lei, tem grandes empresas interessadas - mas ainda falta a infraestrutura de dados que torne tudo isso comparável e crível. A DEEP ESG aposta que quem resolver o problema da padronização primeiro não só presta um serviço, mas estabelece um padrão de mercado. O que o episódio sugere, no fundo, é que o inventário de carbono está deixando de ser uma obrigação de compliance para se tornar um ativo estratégico - e quem chegar atrasado vai pagar mais caro para se adequar.
Quem deve liderar - por setor e por instituição - o esforço de tropicalização e padronização das bases de fatores de emissão no Brasil? E quem tem incentivo real para financiar isso?
O mercado regulado brasileiro vai evoluir para um hub de liquidez com precificação dinâmica, ou vai funcionar como um sistema mais próximo de um imposto com alocação centralizada?
Se dominar medição e comparabilidade cria vantagem competitiva, como as empresas que chegarem atrasadas ao inventário vão competir por acesso a capital e a mercados regulados?